Coloque nos favoritos      19 Visitante on-line

 

Especiais


 

Sábado, 26 de Fevereiro de 2005, 07:28

Reencontro: De braços abertos

Da Reportagem

Fonte: http://atribunadigital.globo.com/bn_conteudo.asp?cod=191314&opr=103
 

PATRÍCIA DIGUÊ

  Foram mais de quatro horas de espera, em pé, perguntando as horas, tomando somente água e com os olhos fixos no portão de desembarque do Aeroporto Internacional de Guarulhos. A ansiedade era para matar uma saudade guardada de mais de 42 anos. O aposentado Eurides Pereira da Silva, de 74 anos, procurava entre as pessoas que cruzavam o portão o rosto da filha, Cleonice da Cunha, de 45, que viu pela última vez quando ela tinha apenas 2 anos e, mais recentemente, através de fotografias.


  O vôo que trazia a filha de Nova Jersey, nos Estados Unidos, atrasou devido a uma tempestade de neve, aumentando ainda mais a expectativa de Eurides. ‘‘Vai chegar só meio-dia?’’, perguntava decepcionado. ‘‘Mas o que são algumas horas para quem já esperou tanto?’’, dizia, tentando consolar a si próprio.
  Na noite anterior ao tão esperado reencontro, o aposentado não conseguiu dormir. ‘‘Tive que tacar chá de erva-cidreira nele’’, contou sua companheira de mais de 20 anos, Adauta.


  Mas a ansiedade de Eurides estava acumulada desde outubro, quando Nice, como é chamada pela família, conseguiu localizar o pai, que mora em Rio Grande da Serra (Grande São Paulo), através de um site de busca de pessoas desaparecidas, conforme noticiou A Tribuna, em 10 de novembro.
  O site (www.desapareceu.com) foi criado pelo estudante de Marketing Stylianos Mandis Júnior, que é de Santos e tem 29 anos (ver matéria).
Suicídio


  Com a simplicidade de quem nunca foi à escola e trabalhou como lavrador e pedreiro, o pai tentava explicar, durante a espera no aeroporto, por que deixou a mulher e os três filhos — Cleonice, com 2 anos, Sebastião, com 4, e Rubens, com 1 mês.
  ‘‘Minha mulher ficou doente do pulmão (tuberculose) e se internou em São Paulo, fiquei um ano sem ela, aí entrou outra mulher no meio e me separei de vez’’. O arrependimento bateu logo. ‘‘Tentei me matar e me joguei na linha do trem’’, conta, mostrando cicatrizes na parte de trás da cabeça e nas mãos provocadas pela tentativa de suicídio dois meses depois de deixar a família.


  A vergonha do que fez e o medo dos filhos não o perdoarem impediram que ele retornasse para casa.
  As crianças foram colocadas em um orfanato da Capital, devido à doença da mãe, que teve que passar por uma cirurgia de retirada do pulmão. Os três só voltaram a morar com ela quando já eram adolescentes.
  O filho mais novo, Rubens, foi tentar a vida nos Estados Unidos. Cleonice casou, teve três filhos, se separou e acabou indo atrás do irmão. A mãe deles morreu há dois anos, aos 65 anos, durante visita aos filhos que moram em Nova Jersey.


Abraço
  O avião demorou ainda mais que o esperado. Mais uma checada no relógio e os olhos fixos no portão de desembarque. A cada passageiro, um sobressalto no coração.


  Às 13h30, Cleonice aparece sorridente. Primeiro vê o irmão, Sebastião e, antes do abraço, pergunta: ‘‘Cadê o pai?’’. Tremendo, chorando e sorrindo ao mesmo tempo, dão um longo abraço, ao som do Parabéns a Você — ontem foi aniversário de Nice.


  Apesar das dificuldades que lhe endureceram o rosto, Eurides também não consegue segurar o choro. ‘‘Um pedacinho de mim está completo agora. Tinha um elo perdido na minha vida, que agora eu consegui completar’’, declarou Nice. ‘‘Minha filha pra mim hoje está nascendo’’.


  Após tanto tempo separados, ambos não tiveram muitas palavras para expressar tamanha emoção. ‘‘A gente quer falar tudo e não consegue falar nada’’, resumiu Eurides. A filha deverá ficar três meses em Rio Grande da Serra e depois quer levar o pai aos Estados Unidos para conhecer os netos. ‘‘Tem um monte de pedacinho dele lá’’, brincou a filha.


  ‘‘Sabia que um dia eles iam me encontrar, sempre falava isso pra minha mulher, que um dia minha família ia aparecer’’, comentou o pai.


  ‘‘É um presente que Deus está me dando. Eu sofri muito com a morte da minha mãe há dois anos. Mas, depois de um ano e um mês, encontrei meu pai. Deus tirou com uma mão e deu com a outra. Agora, eu não deixo ele fugir mais’’, afirmou a filha.


  Quanto aos motivos que levaram o pai a deixar a mulher e os filhos, ela prefere não saber. ‘‘Todos cometemos erros na vida, não vai haver culpas, nem cobranças’’. Apesar de não guardar mágoas, Nice comentou que passou por momentos difíceis devido à falta do pai. ‘‘Era difícil ver uma filha abraçando o pai’’.


  O dia foi de festa ontem em Rio Grande da Serra, com churrascada à tarde e bolo de aniversário à noite. ‘‘Tem um monte de gente esperando ela lá, mas não fala nada que é surpresa’’, contou Eurides.

 

Sábado, 26 de Fevereiro de 2005, 07:29

 

Continua abaixo....

 

 

 

Site sobre desaparecidos permitiu a localização

Da Reportagem

 

  No início do ano passado, Cleonice encontrou na Internet o site Desapareceu. Colocou as informações sobre o pai na página na esperança de alguém fornecer alguma pista sobre seu paradeiro. ‘‘Eu só tinha o nome dele e dos meus avós’’.


  Quinze dias depois, uma pessoa de Curitiba, onde Eurides passou a maior parte da vida, informou, também através da Internet, que o conhecia. Nice iniciou então um verdadeiro trabalho de investigação e acabou encontrando o pai alguns meses depois.


  Ela conseguiu chegar em uma comerciante que conhecia o filho do segundo casamento de Eurides, Celso. E foi ele que informou que o pai havia se mudado para Rio Grande da Serra, fornecendo o telefone e o endereço.
  ‘‘Ele me disse que meu pai estava esperando minha ligação. Comecei a chorar. Todo mundo chorava na minha casa, porque a gente já estava na expectativa de conseguir alguma informação’’. Eurides lembra que a filha ligou por volta das 19 horas e a conversa se estendeu até as 23 horas.
  Desde então, pai e filha vinham se falando quase que diariamente, tentando colocar em dia tudo o que aconteceu na vida dos dois nesses anos todos. ‘‘Ela chegava a ligar duas vezes por dia pra mim’’, contou Eurides orgulhoso.


  O criador do site, Stylianos Mandis, fez questão de acompanhar o reencontro. ‘‘Ele é meu anjo’’, dizia Cleonice. Conforme o estudante, o site existe há dois anos e já ajudou a encontrar 40 pessoas. Ele informou que na próxima terça-feira, vai inaugurar o novo formato da página, onde os cadastrados terão um e-mail para receber as chamadas ‘‘pistas’’. ‘‘Porque hoje eu é que fico de intermediário ligando para as pessoas e passando as informações’’.


  Outra novidade no site será a separação por países. ‘‘Será um site para localizar brasileiros desaparecidos pelo mundo’’. Mandis comenta que a página não tem fins lucrativos. ‘‘Estamos conseguindo patrocínio para mantê-lo no ar e em breve vou transformar o Desapareceu em ONG’’.
Dois pais
  O primeiro dos três filhos a reencontrar Eurides foi Sebastião Pereira da Silva, de 47 anos, que trabalha como gráfico em São Paulo. Ele foi ontem ao aeroporto esperar Cleonice com a mulher, Vera Lúcia, a filha, Lilian, e a neta, Giovana.


  Tião, como é conhecido pelos parentes, foi informado pela irmã sobre o paradeiro do pai. Após um telefonema, marcou o encontro. ‘‘Ele (Eurides) estava me esperando na varanda’’.


  A princípio, Tião conta que demorou para chamar aquele até então desconhecido de pai. ‘‘Eu sempre chamei meu padastro de pai, chamo até hoje, mas agora chamo os dois. A gente já foi até pescar junto’’.
  Segundo Sebastião, a mãe contava que o pai havia ido trabalhar em uma firma, arrumado outra mulher e ido embora. De lembrança, ele só tinha uma foto 3x4 de Eurides.

 

Assista a matéria do JORNAL NACIONAL - REDE GLOBO !